quarta-feira, 21 de março de 2012

Solstício

São dias quentes, manhãs de frescura;
São noites frias, serões de ternura;
São dias de sol alto, ou sol de pouca dura;
E as noites frias guardam tua beleza pura.
É quente, é frio.
É eterno, é prazer.
É loucura, é brio.
É servir, é viver.

São noites sonhadas, dias vividos.
O que foi não volta, e o que está
Será jamais esquecido;
E o que está será lembrado p'ra lá
De qualquer outro sentimento:
O que foi não volta, e o que está é fogo lento.

Fantasia

Espero desta noite que nunca acabe.
O tempo já é escasso,
E arrefece-me a face,
Enquanto os teus dedos entrelaço
Nos meus.

Não vejo nem sinto nada.
Quero-te perto,
Mais perto, nesta noite gelada.
E os teus dedos entrelaçados aperto
Como se não houvesse amanhã.

Porque a vida são dois dias
E um sonho são segundos.
Se eu pudesse teria
Toda a vida em sonhos profundos.
Que a vida é fantasia.

sábado, 17 de março de 2012

Liberdade

Quero libertar-me.
Libertar-me desta melancolia,
Libertar-me desta histeria
Que me consome e me detesta...
Libertar-me daquilo e disto,
Libertar-me da vida incerta,
Deste mundo, de tudo, insisto:
Ter em mim mais nada,
Ter-me a mim. Mais nada.

[Sem título]

I was for four years, four times in love.
I was for four years, four times like a dove,
Flying high up above,
So high and pure and white
Like the moon in the night.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Quando foi

Quando foi
Quando foi que me esqueci de ser,
Quando foi que me esqueci de querer?

Quando foi
Quando foi que deixaste tu de sorrir,
Quando foi que deixaste tu de me ouvir?

Ouve-me...
Sempre precisei de ser ouvido...
Quando foi que me deixaste perdido?
Ouve-me...
Agora que te chamo, amor,
Ouve-me, que eu chamo-te de onde for,
Chamo-te, agora, tão cheio de dor.

Quando foi
Quando foi então que me faltou o ar,
Quando foi então que me faltou falar?

Amor, quando foi, quando foi
Quando foi que esqueceste o luar?
Quando foi que deixaste de amar...

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando

Quando se tem tudo mas se quer mais,
Quando o chão que pisamos não chega,
Quando o que sabemos não nos sossega,
Quando tudo são restos de coisas banais...

Quando caímos na dependência do erro,
Quando errar se torna um acto de vitória,
Quando o fracasso é a alegoria da glória...
É quando tudo se exprime com um berro.

Quando nada aqui  faz mais sentido
E se parte para um lugar mas protegido:
Esse refúgio onde o sonho é infinito.

Soneto V (Longe)

Lá longe, onde não nasce o Sol,
Lá longe, os sonhos vão morrer...
Lá longe, sem guia nem farol,
Lá, longe, tristes almas vão viver.

Sem o Sol, que é meu cancioneiro,
Canta-me as tuas desventuras.
Sem a Lua, que me tem prisioneiro
Das noites sem ti, das amarguras...

E afogo-me, lá longe, assim,
Nas memórias e esquecimentos,
E perco-me de ti, enfim,

Perco-me dos meus sentimentos...
Lá longe, onde as noites não têm fim,
Onde cada sonho é dor e sofrimento.

domingo, 11 de março de 2012

Soneto IV

Se não me trai o olhar, trai-me o que vejo.
Olho para tudo e ao mesmo tempo, cego,
Perco a noção do que o mundo espelha.
Este mundo escuro que fito de esguelha.

Se não me trai o olhar, trai-me a imagem.
Vejo o que é, e o que não é é miragem,
Enquanto tudo me parece ser fiel e real,
Há coisas que se escondem no surreal.

E este mundo imundo que me tenta e ganha,
E este mundo profundo que insiste e resiste
E me troca o que vejo pelo que desejo

É o mesmo mundo que me acompanha,
Que me estanca a memória que persiste,
E me diz "fecha os olhos, não queiras ver o que eu vejo"

sábado, 10 de março de 2012

Fatum

Como um fio,
Instável, que se rompe num instante
Mas que podemos sempre reatar;

Como um ramo esguio,
Frágil, mas com um crescimento incessante,
Parte-se. Mas não deixa de sonhar.

Como um filme já visto
Ou uma peça nova,
Como um ser esquecido,
Um ser destemido...

Assim é a vida, um fio.
Assim é, um ramo esguio.
Assim é.
Parte-se, rompe-se.
Ata-se, recompõe-se.

Assim é a vida, sem medo de falhar
Como a vida deve ser: ter coragem de voar.

terça-feira, 6 de março de 2012

Fugaz como o beijo

Fugaz como o beijo,
Fugaz como o que vejo,
Fugaz, assim, como o desejo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Que falta me faz a cor

E se tudo o que procuro
Fosse descoberto no escuro?
Que falta me faz a cor...

E se tudo o que vejo
Fosse efémero como um beijo?
Que falta me faz a cor...

E se tudo o que sinto
Fosse apenas um toque extinto?
Que falta me faz a cor...

E se sumisse toda essa cor
Como pintava eu a tua flor?
Que falta me faz a cor...

Sem que saibas, vejo-te dormir

Sem que saibas, vejo-te dormir.
Nem todas as estrelas do céu,
Nem o luar em noite de breu,
Têm mais brilho que tu a dormir.
Dou comigo, então, a sorrir
Ao ver-te nas mãos de Morfeu,
-Longe de tudo o que é meu-
E, enfim, deixo-me ficar,
Sem te querer acordar,
Porque é tão bom ver-te dormir...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Fugaz

Sobe e desce
E desce e sobe,
E desde que eu soube
Que o que sobe e cresce
Tão depressa foge
Como depressa desce...
E assim se esquece
que a vida some
Enquanto se dorme.