sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Peter Pan

Querer voltar, querer voltar,
Voltar atrás, voltar ao que era,
Voltar a sentir, só mais uma vez,
Voltar a sentir toda a nudez
E a ingenuidade de quem não espera
Para viver mais um dia
E voltar a trás.
Voltar a trás, a ser o que era,
Que um dia deixei de ser.
Deixar de crescer.

Não mais o frio no peito,
Aperto no coração,
Não mais o sentimento perfeito,
Nem o toque da tua mão;
Não mais o voltei a dizer,
Não mais a palavra que é tua,
Nem o sonho o voltou a ser,
Nem a noite voltou a ter lua.

Voltasse atrás, e de lá eu não saísse,
Ficasse para sempre apreendido
Aos sonhos esquecidos,
E de lá eu não mais saísse.
Voltasse a ser, voltasse a ter,
Voltassem as tardes, voltasse a madrugada,
Voltasse a lua e as estrelas ao céu.

Trago o rio de volta
Trago-te de volta ao meu rio
Trago de volta as memórias
E fico para sempre preso
Ao tempo que já passou.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A noite

Even
After
All this time
The Sun never says to the Earth,
"You owe me."

Look
What happens
With a love like that,
It lights the whole sky.

Hafiz


E do Sol se sucede a noite
E se fosse a noite a reinar o céu?
E se às escuras se visse o luar,
Seria a Lua o mausoléu
De quem não dorme ou se deixa dormir.

Oh noite que me trazes luz
Segredos e sonhos de embalar
Noite, que o seu império ao Sol sucede:
É a noite quem manda e o Sol obedece.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Conto até três

Conto até três, fecho os olhos
Abro o peito, rasgo a vontade.
Um... Dois... Três...
Num desassossego da mente
Forço para me esquecer da vaidade
Do que sinto, fico transparente
Exposto ao vazio que me enfrenta.
Um... Dois... Três...
Transporto para fora de mim
O que a mim me sustenta,
Tudo o que me contém e me mantém:
Fico leve. E leve, que o vazio me leve,
Conto até três que o tempo é breve;
Conto até três, em três vezes. O tempo é breve.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sente, mas não tenhas medo

Sente, mas não tenhas medo.
Não há silêncio mais histérico
Que um sentimento escondido.
De todas as vozes que ouves
Não queiras ouvir a razão,
Rasga de ti o sentimento perdido,
Carrega-o para a solidão.
Arrasta-o contigo. Perde-te.

Quando não há memória,
E se esquece todas as fantasias,
Fechemos os olhos para sentir.
Chora agora que ninguém te ouve.
Chora, mas não tenhas medo
Que o medo só nos deforma
Que o medo só nos arranha
Que o medo só nos entranha
No passado sem futuro
Nos sonhos sem forma!

Chora agora, chora que não te ouvem!
Sente! Deixa a lágrima desaguar
No mais fundo do teu ser
Na flor de quem és.
E como rio que corre
Tem em si a história escrita:
Nasce. Vida. Morre.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Misto

Misto
É aquilo mais isto;
É tudo pensado
E é nada previsto.
É o inesperado
De um compromisso.

É um misto é um vazio,
Um sem número de cores
Num campo seco sem flores.
Ora é noites em claro a fio
Ora dias escuros e sombrios.
É um misto num vazio.

Saiba eu cuidar-me
Que quando me falha o chão
Não tenho quem amparar-me,
Saiba eu fazer crescer a razão
Que o dia não nasce da minha mão,
Pois, não queira eu tudo em vão.

É um misto
Tão misto, mas não desisto.
Tão misto, que insisto.
Tão misto, que resisto.
Tão misto tão misto:
Formam-se estas asas que visto.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Luzes

Luzes luzes luzes, cores
Céus de fantasia,
Passeios de promessas e desamores,
O chão foge na noite vazia,
E o barulho e o silêncio em mim
Escorregam-me em louvores
E odes triunfais sem fim.

Das luzes à cegueira,
Da cegueira às luzes incessantes...
Resisto apagado a noite inteira
Em flashes fulminantes,
Quando a noite me chama à vontade
E eu vou e regresso por breves instantes.
Escondo-me no escuro da cidade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

[Sem título]

Nem que a chuva me molhe,
Nem que o céu sobre mim caia,
Nem que o vento me sopre,
Nem que as nuvens me apaguem,
Nem que as ondas me batam,

Eu não me vou mover.

Nem quando o dia sobre mim passar,
Nem quando a noite me arrastar,

Eu não me vou mover.

Até que o teu nome eu repita,
Até que o teu nome eu volte a dizer,

Eu não me vou mover.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Pedras salgadas do chão da praia

Pedras salgadas do chão da praia,
Onde me sento e te canto,
Sem canção que seja cantada
Ou melodia que de ti possa falar:
Escrevo sem palavras que se descrevam
Ou que valham o valor que pesam.

Não há nesta praia areia que se levante
Tão alto como a minha voz que calada
Te enaltece, sem murmúrio do vento,
Sem tremores de marés nem ondas,
O meu canto te vai contando
Sem martírios. Linhas minhas vão voando...

Calçada de Lisboa

O sol foge por entre as linhas da cidade
Esconde-se atrás do que está por detrás
Do mais quieto recanto escondido e jaz.
Na eterna melancolia de Lisboa, na eternidade
Da recôndita cidade onde vivo e vagueio,
Perco o sol de vista numa tarde de nevoeiro.

Assim, também eu me perco por ruelas,
Por calçadas e passeios de histórias contadas,
Assim, sem o sol que me ilumine as estradas,
Em romantismo, como noite à luz das velas,
Atraso o passo porque já tudo é tão breve...
Ao menos que me sirva a noite, pois já nada me serve.

Estas linhas que nos conheciam,
Estes becos que te viram dormir,
Já nas calhas de noites esquecidas...
Já não sabem mais de nós.
Tantas pedras, tanta calçada chorada
Por onde passámos os dois,
Perguntam por nós sem saber onde estamos,
Pois nunca mais caminhámos
Pelos caminhos da cidade onde vagueio.

domingo, 12 de agosto de 2012

Sedução

Fora aquelas viagens,
Que me desencaminharam
Por caminhos da sedução
Por noites esquecidas ao luar;
Fora aqueles sonhos,
Irrepetíveis sonhos que tivemos,
Nós fomos e viemos.

Sei que guardei o que pude,
E que trouxe comigo.
Às madrugadas quentes
Às tintas noites de cede,
Brindámos sem esquecer
Que nada vai e volta
Enquanto o dia se solta.

Corremos sem sentido,
Quando nada tem sentido,
Quando tudo é sem sentido...

Que seja!
Pois enquanto for,
Será apenas o que se deseja.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Lá se ganha e a Lua vai alta

Lá se ganha e a Lua vai alta.
Enquanto se quer ter a vida
Se perde o que se perdeu,
Se ganha de novo o que existiu,
Se retém o que não partiu;
Se guarda a dor do frio...

Se não queres voltar a sentir,
Esqueces. Não queiras outra vez.
O que a vida te traz de novo
É bênção, é vontade...
É tudo, mais a saudade,
É saber viver com a verdade.

Um dia renascerás.
Um dia voltarás
A reviver o cor do pôr do sol,
A saber o cheiro do luar.
Um dia terás o toque suave
Um dia tocarás tão suave...

Enquanto crescem muros
Enquanto muralhas se formam,
Há vidas que se deformam
E que no Tempo se transformam.
Fechei o coração.
Esqueci o perdão.
Vivo agora , livre, sem razão.

domingo, 5 de agosto de 2012

Pinta o céu

Uma nova luz nasce,
Uma nova cor pinta o céu.
Luz que nasces e pintas o céu
Traz-me a mim a tua vida, pinta o teu céu e o meu.

Só sei viver se te seguir

Estrelas a brilhar
Toda a luz todo o luar
A escuridão e o mar
Cheiros intensos no ar
O tremor sem parar
Uma viagem no mesmo lugar
Uma vontade de não ficar.

Ter tudo o que se quer
Ter tudo sem se querer
Poder finalmente ser
Ter simplesmente o poder
Sugar a vida enquanto der
Não parar nunca de correr
Fechar os olhos e ver.

Estar só na multidão
Estar só sem solidão
Viver sem ambição
Sei que existo sem razão
Sabes que nada é em vão
Ignorar o coração
Sentir a cada pulsação.

Pintar uma miragem
Colorir a tua imagem
Errar sem margem
E os gritos submergem
Paragem
Tropeçar na linguagem
Que uso em cada mensagem.

Não vivo sem sentir
Não vivo sem sorrir
Não vivo sem mentir
Não vivo sem fingir
Só vivo se for a dormir
Só sei às nuvens subir
Só sei viver se te seguir.

sábado, 4 de agosto de 2012

Fiz formas estranhas nas nuvens

Fiz formas estranhas nas nuvens
Enquanto o Sol se punha
E aguardava a luz da Lua,
É de lá que tu vens.

Transformei as nuvens em figuras
Dos meus sonhos de insónias
E acordado receei que viesses,
Noite de Lua cheia, eis que apareces.

Fraquejei a cada movimento,
Hesitei a cada respiração,
Anulei cada arrependimento.
Parei o meu coração.

Tão pura qual ingenuidade
Das nuvens que no céu vi,
Tu chegaste com a Lua em ti,
Qual noite fresca, qual eternidade...

Se eterna fosse esta noite,
Eterna seria a vaidade
Da Lua que nela cai,
Eterna serias tu, que dela vens.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Quando todo o pó assenta

O que acontece ao que fica,
Ao que passou?
Quando todo o pó assenta
Na estrada livre de vozes,
E para trás fica o silêncio das atrozes
Madrugadas de relento, da sedenta
Noite sem fim que me rouba o sono.

Quando todo o pó assenta,
Quando o sol se põe e a noite cai,
Quando a minha face arrefece,
Quando a estrada perde a cor.
Quando não sentir mais dor,
Quando não vir a luz,
Quando fechar os olhos e tocar
Toda a velocidade do Tempo,
Toda a velocidade da Idade...

Quando fechar os olhos,
Poderei voltar a sentir
A dor de viver.

Quando todo o pó assenta,
O que acontece ao que fica
Ao que passou?
Poeiras que poisam aqui e ali,
Cheiros que contam-nos por aí.

domingo, 22 de julho de 2012

Slow down the time


I'm up in the woods, I'm down on my mindI'm building a still to slow down the time
Justin Vernon

Rodeado por todos os lados,Sem caminhos nem fugas nem escapes...E todo este Tempo que me retém, agarradoÀ efemeridade da persistência, sem certezas,Entrega-me como não quero à vida.Quando tudo o que me rodeia é nada,Quando tudo o que me rodeia é tudo,E quando esse nada é tudo e esse tudo sou eu:Tudo se deforma e se pinta em garridasCores mórbidas, sépias, tons de veludo,O vento são suaves fios de linhoQue cortam o tempo em finas fatiasDo percurso da vida.
Ouvi dizer que o vento ia parar de cortar,Que o Tempo ia parar de soprar...Ouvi dizer que se esgotaram os segundos,Nesta floresta encantada de sonhos,Esgotaram-se os dias. Para sempreEsta noite.

domingo, 15 de julho de 2012

Exaustão

São momentos como este, turvos,
Que me consomem e me levam à exaustão,
Sons mortos, silêncios escuros...

Oh larguem-me, libertem-me no chão
Queira eu ficar aqui quieto...
Estou exausto. Cansado da ilusão.

Oiço a música, a mesma música de sempre,
A mesma música que me leva e me traz,
A mesma música que aqui me prende.

São momentos como estes,
Em que me sinto exausto
E a insónia toma conta destes
Monstros que me assombram.

Nem a música se cala, nem o sono vem.

E é nesta escuridão em que estou,
Sem forças que me movam;
É neste sufoco em que estou,
Sem nada que me agarre...
E é neste inconformado estado de ser
Em que estou, que tudo me ganha,
E tudo -mas tudo- me cansa.

Estou exausto e cansado e angustiado
Estou assim. E não quero!

Vou antes mudar de música.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Alucinações

Antes de tudo o que é vida,
Antes de tudo o que é meu,
Antes, ainda, de tudo o que já foi,
Existe algo que nunca experimentei:
Sonhos acordado, alucinações,
Exuberantes alucinações...
Sonhar acordado. Quero.
Quero um dia sonhar acordado.
Nunca tive eu sonhos passados.
Quero um dia sonhar acordado.

[In memoriam: Joaquim Simões)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Relógios (O Tempo)

Se soubesse o que me dizem os ponteiros
Deste relógio de parede velho,
Que a cada tic-tac cede segundos,
Cede-se ao tempo, desfaz-se em nada.
Se desses ponteiros eu soubesse a verdade
E o tempo não parasse, ou parasse
Então para sempre, sem remorsos...:
Se parasse, ficariam os sonhos congelados,
Ansiando que o teu beijo os descongelasse;
Se não, ficariam estes sonhos desgastados,
Horas por dormir, à espera que o amanhã chegasse.

O tic-tac já não fala. Que se cale a vida.
Se a vida em tempo se traduz,
Se o tempo na vida se produz,
Faça-se parar tudo.
Possa-se viver para sempre!

Os relógios funcionam,
Mas o tempo não passa.
O que antes estava inteiro
Agora está desfeito.

sábado, 30 de junho de 2012

Por entre

O vento sopra entre os raios de Sol
Que nasce agora para mais um dia sem cor,
E por entre brisas se enroscam os meus sonhos nos teus,
Por entre brisas estão perdidas as palavras minhas que não disse.
Por entre brisas, por entre linhas, perdidos ficaram os abraços.
Perdidos estão todos os passos, que de mãos dadas,
Ficaram por dar, ficaram por viver...

Por entre estes raios de Sol e estas brisas da madrugada,
Por entre nada,
Estou eu e os meus versos,
Eu, eu e os meus sonhos.
Mais nada. Que tudo mais me dá sono.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A cede

Respiro o ar do ar que me sufoca,
Esta atmosfera que me rodeia, que me retém,
Tira-me o fôlego, não me deixa avançar.

Respiro o ar do ar que me sufoca,
Respiro o teu ar que dos teus lábios vem.
Tira-me o fôlego, mata-me a cede, deixa avançar.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Eternidade efémera


Elle est retrouvée!
Quoi? L' éternité.
C est la mar mêlée
Au soleil.

Mon âme éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.

A. Rimbaud

Sem querer abro uma gaveta,
Sem querer remexo o que vejo,
Sem querer pego nesta caixa preta.
Abro-a; está cheia de memórias:

Uma imagem já gasta,
Um Sol e um Mar...
Ah como eu queria de novo
Voltar a esse lugar!
Como eu gostava de ser eu para sempre;
Ter o dom e poder de o tempo parar!
Ser Rei destes sonhos
E da eternidade!

Eternidade...
Efemeridade...
Vida e Morte; Ser Eu
E já não ser.

sábado, 16 de junho de 2012

Hoje vi

Hoje vi
-Como se dessa visão viesse
Uma realidade desconhecida-,
Um sorriso, uma cor, que não se esquece,
Um sorriso, uma pausa interrompida.

Hoje vi
-Como vislumbro de manhã o mar
E à noite o céu sombrio-,
Vida minha em teu olhar...
Vida minha em teu azul frio...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Mundo dos Sonhos

Quisesse um dia eu o chão pisar
E não vivesse tão alto, nas nuvens,
Esta terra perdia a cor que tem,
O solo este, estéril com meu toque ficava.
Com tamanha vontade de lá estar,
Vivo em meus sonhos altos sem céu
Nem chão nem vida nem memória.

Não posso eu no Mundo estar,
Não posso nem devo. Nem quero.
Que o Mundo este não me deixa sonhar,
Que o Mundo este, onde escrevo, não tem dor
E este outro de que falo é frio e sem cor.
E este mundo dos sonhos, nas nuvens reside,
Só a poesia -estas linhas minhas incertas-
Tem lugar onde mais ninguém quer estar.

domingo, 3 de junho de 2012

Noite fria

Hoje cai a noite,
Fria como as tuas mãos
Que me tocam sem qualquer razão;
Fria, então, cai em manto,
E a lua cheia, e as estrelas em pranto
Iluminam-te o rosto e os olhos fechados.

Vejo a noite cair,
Enquanto os teus olhos já cerrados
Vêem sonhos sonhados a dormir.

Só a lua e só as estrelas,
Me vêem aqui, acordado,
Querendo ver-te dormir.
Tão perto está o teu sonho de mim,
Tão perto que o posso sentir,
Tão perto, que o posso agora sonhar, por fim.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sigo só nesta vida fria

Como vagabundo, como marginal,
Como peregrino, como viajante...
Que estradas sigo eu, afinal?
Que caminho, enfim, tão distante.
Só o Sol me leva, só a Lua me guia,
Só. Sigo só nesta vida fria.

Como viagem ou jornada,
Como percurso ou rumo a seguir...
Nunca a meta é alcançada,
Se nunca chegarmos a partir.
E assim eu sigo, perdido
Sem saber. Só sigo. É meu destino.

Oh vida, que me perdes em ti!
Oh vida, que não me deixas ser
O que eu de mim quero fazer.
Oh vida minha, vida esta!
Caminho eu enquanto resta
Tanta estrada para não ficar mais aqui.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Acima do Céu

Acima do Céu,
Eis o que eu vejo,
Que todo o mundo assim seja
É nada mais o meu desejo.
Acima do Céu o sonho é meu e teu.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Se sou, sou!

Perfeito, perdoem-me, não sou,
Mas sei que estou lá perto.
Por ser assim como sou
Acredito que tudo o que sei é certo
(O que sei, digo e faço!).

De todas as virtudes que tenho
(Embora possa ser defeito)
É este o meu sentimento estranho:
De que é bom o que tenho feito;
De que é grande tudo o que sou.

Dizem que sonho alto;
Que penso demasiado em mim...
Mas eu todas as etapas salto
Sem problemas, até ao fim.
A vida conta de mim não tomou!

Sobram-me qualidades!
Tenho-as mais que um pecador defeitos.
Se é assim que me olham,
Se a fama tenho, que dela
Ao menos tire o proveito!

sábado, 19 de maio de 2012

[Sem título]

Quisesse eu sentir o vento,
Quisesse eu tocar o céu...

Queira eu tudo o que não tento.

[Sem título]

-E quando se põe o Sol?
-Cai em mim a solidão.
Mas é essa a minha vida, minha razão
De viver o dia.

-E quando não nasce a lua?
-É oco o meu coração.
Não queira eu ver, é triste essa escuridão
Onde só ficam as estrelas.

[Sem título]

É preciso parar, às vezes,
Parar para pensar, quem sabe.
Nem tudo é tão claro
Para quem o torna tão turvo.
Quem sabe, quem pensa
Verá o fundo do mar.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Se um dia o Mundo eu dominasse

Se um dia o Mundo eu dominasse,
Se dele eu fosse dono e senhor,
Traria de novo todo o esplendor
Das memórias perdidas, e esgotasse
Eu o tempo que nele resiste
E ficava eu, quieto, a ver
O que de mais belo neste Mundo existe:
Tu, oh efémera dor e prazer.

Se um dia o Mundo eu dominasse,
E fizesse dele a mais bela canção,
Tu serias o verso e o refrão,
E que noite e dia eu não me calasse
Para que nunca pudesses esquecer
A canção que por ti eu escrevi.
Se do Mundo eu não chegar a ser
Dono, canta esta canção por mim.

domingo, 29 de abril de 2012

Dança dança e não pares

Enquanto a música toca,
Lá fora o breu toma conta da cidade,
A melodia aperta em crescente e brota
De ti a felicidade mais pura sem idade.
Ouvimos tantas vezes esta canção
Que a sei de cor, e a canto para ti.

Dança dança e não pares
Dança como se não houvesse solidão,
Dança então, dança sem razão!
Que a dança te leve, esqueçamos os azares.

Quando uma nova música toca,
Uma melodia diferente que me cala,
Dança uma dança nova, uma dança louca
-Que também ela me cale- e embala
O meu corpo, nessa dança que é tua.
E dança essa dança só para mim.

Dança dança e não pares
Dança como se não soubesses porquê,
Dança então, dança que ninguém te vê!
Que quem dança se esconde dos maus olhares.

Queira eu saber dançar como tu!
Encarar a vida com essa alegria...
Queira eu saber dançar como tu!
Ter em mim toda essa magia...
A cada passo um sorriso.
A cada compasso a paixão.

Dança dança e não pares
Dança como se fosse a primeira vez,
Dança então, dança a tua nudez!
Que a dança também é dança se for a pares!

domingo, 22 de abril de 2012

Tamanha saudade

Tamanha saudade é aquela que vem com o vento,
Em dias de sol quente esquecidos no deserto,
E que tanto como passam em nós, fica o aperto
Que descarna o mais solitário e profundo sentido
Que no peito se esconde e permanece retido,
E não deixa que a saudade, essa, caia no esquecimento.

Tamanha é a saudade que sinto, que não me faz chorar.
Rasga e espalha antes em mim uma fonte de alegria
Que brota dos sucumbos, em que dantes por ti sofria.
Rasga-se o sorriso mais puro, que agora por ti cresce,
Que da saudade nasce -e do que foi vil se esquece-
Porque um dia fui feliz. Queira eu para sempre amar.


Porque a saudade vai e vem,
São memórias que ainda resistem.
Porque a vida tem que ser vivida,
Não se nega o que já foi vida.

sábado, 7 de abril de 2012

Por vezes o vento sopra a favor

Por vezes o vento sopra a favor,
Tanto traz o cheiro a maresia
Como a saudade e a dor,
Tanta dor e poesia!
Por vezes é tão calma a brisa
Que nem sei o que respiro.
Memórias que transpiro,
E que o sopro do vento suaviza.


Por vezes o vento sopra a favor
De quem ganha, de quem resiste.
Esse vento com tal sabor
Que guarda a gente que não desiste.
Por vezes, o vento não chega a soprar.
Dias frescos, amargos e imensos,
Dias -não me queira eu lembrar-
Em que voaram meus sonhos intensos.

[Sem título]

Quem me julga não conhece,
Quem me testa não sabe,
Quem me contesta não esquece,
Quem me de mim fala, que se cale.


O que há de bom em mim,
Não escondo a ninguém.
O que há de melhor, enfim,
Isso eu guardo-o bem.


Até no céu mais estrelado
Predomina a escuridão.
Pois todo o sonho que foi sonhado
É esquecido na solidão.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Hoje faz falta o frio, faz falta o silêncio

Hoje faz falta o frio, faz falta o silêncio.
Faz falta a paz sufocante e o desejo
De uma noite como outras: quando invejo
Quem não sonha, quem não sente,
Quem não espreita o passado 
Mas que como criança abraça o presente.
Ah, se eu assim não me sentisse cansado!

Hoje faz falta tudo o que nunca tive.
Faz falta essa calma de quem espera
Que o dia nasça sozinho, sem pressa,
E que por isso não se cansa
Como quem corre na esperança
De ver nascer o dia antes que o dia
Apareça para mais uma manhã fria.

Hoje faz-me falta o murmúrio da noite.
Faz-me falta a palavra que perdes
Ao meu ouvido quando te despedes.
Faz-me falta o toque da tua mão
Fria, que me aquece o coração.
Faz-me falta o teu beijo na minha face,
Faz-me falta o teu corpo, p'ra que o abrace.

Hoje faz falta que o silêncio se instale,
E que traga o frio, e a cede e a saudade,
E que passe comigo a noite, p'ra que eu me cale.
Nesta dor que hoje guardo e que vive em mim
Esconde-se um sonho, um sonho sem fim;
Esconde-se mais uma noite sem dormir
E que sem dormir fico noites sem sentir.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sei

Sei quem és,
Sei muito bem quem és.
Sei para onde vais...

Que tudo o que ao longe vejo
E que não consigo agarrar,
Está mais perto de mim que o teu beijo
Que nunca me chegaste a dar.

Sei disso e muito mais:
Sei que és rosa no deserto,
Sei que és prosa no meu verso,
E sei que és o sopro no meu rosto,
O meu recanto, o meu encosto.

Sei quem tu és,
Sei, não me posso esquecer.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Solstício

São dias quentes, manhãs de frescura;
São noites frias, serões de ternura;
São dias de sol alto, ou sol de pouca dura;
E as noites frias guardam tua beleza pura.
É quente, é frio.
É eterno, é prazer.
É loucura, é brio.
É servir, é viver.

São noites sonhadas, dias vividos.
O que foi não volta, e o que está
Será jamais esquecido;
E o que está será lembrado p'ra lá
De qualquer outro sentimento:
O que foi não volta, e o que está é fogo lento.

Fantasia

Espero desta noite que nunca acabe.
O tempo já é escasso,
E arrefece-me a face,
Enquanto os teus dedos entrelaço
Nos meus.

Não vejo nem sinto nada.
Quero-te perto,
Mais perto, nesta noite gelada.
E os teus dedos entrelaçados aperto
Como se não houvesse amanhã.

Porque a vida são dois dias
E um sonho são segundos.
Se eu pudesse teria
Toda a vida em sonhos profundos.
Que a vida é fantasia.

sábado, 17 de março de 2012

Liberdade

Quero libertar-me.
Libertar-me desta melancolia,
Libertar-me desta histeria
Que me consome e me detesta...
Libertar-me daquilo e disto,
Libertar-me da vida incerta,
Deste mundo, de tudo, insisto:
Ter em mim mais nada,
Ter-me a mim. Mais nada.

[Sem título]

I was for four years, four times in love.
I was for four years, four times like a dove,
Flying high up above,
So high and pure and white
Like the moon in the night.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Quando foi

Quando foi
Quando foi que me esqueci de ser,
Quando foi que me esqueci de querer?

Quando foi
Quando foi que deixaste tu de sorrir,
Quando foi que deixaste tu de me ouvir?

Ouve-me...
Sempre precisei de ser ouvido...
Quando foi que me deixaste perdido?
Ouve-me...
Agora que te chamo, amor,
Ouve-me, que eu chamo-te de onde for,
Chamo-te, agora, tão cheio de dor.

Quando foi
Quando foi então que me faltou o ar,
Quando foi então que me faltou falar?

Amor, quando foi, quando foi
Quando foi que esqueceste o luar?
Quando foi que deixaste de amar...

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando

Quando se tem tudo mas se quer mais,
Quando o chão que pisamos não chega,
Quando o que sabemos não nos sossega,
Quando tudo são restos de coisas banais...

Quando caímos na dependência do erro,
Quando errar se torna um acto de vitória,
Quando o fracasso é a alegoria da glória...
É quando tudo se exprime com um berro.

Quando nada aqui  faz mais sentido
E se parte para um lugar mas protegido:
Esse refúgio onde o sonho é infinito.

Soneto V (Longe)

Lá longe, onde não nasce o Sol,
Lá longe, os sonhos vão morrer...
Lá longe, sem guia nem farol,
Lá, longe, tristes almas vão viver.

Sem o Sol, que é meu cancioneiro,
Canta-me as tuas desventuras.
Sem a Lua, que me tem prisioneiro
Das noites sem ti, das amarguras...

E afogo-me, lá longe, assim,
Nas memórias e esquecimentos,
E perco-me de ti, enfim,

Perco-me dos meus sentimentos...
Lá longe, onde as noites não têm fim,
Onde cada sonho é dor e sofrimento.

domingo, 11 de março de 2012

Soneto IV

Se não me trai o olhar, trai-me o que vejo.
Olho para tudo e ao mesmo tempo, cego,
Perco a noção do que o mundo espelha.
Este mundo escuro que fito de esguelha.

Se não me trai o olhar, trai-me a imagem.
Vejo o que é, e o que não é é miragem,
Enquanto tudo me parece ser fiel e real,
Há coisas que se escondem no surreal.

E este mundo imundo que me tenta e ganha,
E este mundo profundo que insiste e resiste
E me troca o que vejo pelo que desejo

É o mesmo mundo que me acompanha,
Que me estanca a memória que persiste,
E me diz "fecha os olhos, não queiras ver o que eu vejo"

sábado, 10 de março de 2012

Fatum

Como um fio,
Instável, que se rompe num instante
Mas que podemos sempre reatar;

Como um ramo esguio,
Frágil, mas com um crescimento incessante,
Parte-se. Mas não deixa de sonhar.

Como um filme já visto
Ou uma peça nova,
Como um ser esquecido,
Um ser destemido...

Assim é a vida, um fio.
Assim é, um ramo esguio.
Assim é.
Parte-se, rompe-se.
Ata-se, recompõe-se.

Assim é a vida, sem medo de falhar
Como a vida deve ser: ter coragem de voar.

terça-feira, 6 de março de 2012

Fugaz como o beijo

Fugaz como o beijo,
Fugaz como o que vejo,
Fugaz, assim, como o desejo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Que falta me faz a cor

E se tudo o que procuro
Fosse descoberto no escuro?
Que falta me faz a cor...

E se tudo o que vejo
Fosse efémero como um beijo?
Que falta me faz a cor...

E se tudo o que sinto
Fosse apenas um toque extinto?
Que falta me faz a cor...

E se sumisse toda essa cor
Como pintava eu a tua flor?
Que falta me faz a cor...

Sem que saibas, vejo-te dormir

Sem que saibas, vejo-te dormir.
Nem todas as estrelas do céu,
Nem o luar em noite de breu,
Têm mais brilho que tu a dormir.
Dou comigo, então, a sorrir
Ao ver-te nas mãos de Morfeu,
-Longe de tudo o que é meu-
E, enfim, deixo-me ficar,
Sem te querer acordar,
Porque é tão bom ver-te dormir...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Fugaz

Sobe e desce
E desce e sobe,
E desde que eu soube
Que o que sobe e cresce
Tão depressa foge
Como depressa desce...
E assim se esquece
que a vida some
Enquanto se dorme.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Soneto III

Dei voltas e voltas na cama
Enquanto dava voltas ao pensamento.
Quantas estrelas tem o firmamento?
Tantas quantas estrelas vê quem ama.

Tantas voltas dei sem conseguir dormir
Que as contei todas imaginando,
E o meu pensamento, sonhando,
Contou as vezes que te vi sorrir.

Mas que falam as estrelas de ti?
Que me dizem do teu sorriso?
Porque não me deixas dormir?

Quando o sono falha sem aviso
E tu me ocupas horas sem fim...
É p'ra os teus sonhos que eu quero fugir...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fado (Será assim)

É assim,
Uma viagem alucinante, irreversível,
Não poderás olhar para trás.
No entanto tudo será invisível,
Tudo será tão rápido e fugaz...
Será assim...
E se te escapa das mãos,
Se não o consegues agarrar,
Então tudo será em vão,
Verás tudo à tua frente a voar.
Será assim...
Sem tirar nem pôr, é isto,
A tua vida, insisto:
Será assim.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Soneto II (Vinho)

Conta-me como foi o teu dia,
Encosta-te um bocado aqui.
Enquanto a noite espera por ti
Ouve o silêncio da madrugada fria.

Bebe um copo de vinho comigo,
Descansa. Amanhã tudo corre melhor.
Deixa que a noite esconda a tua dor.
Tudo passa depois de um copo de vinho.

Ah, como sabe bem este nada!
Este vinho nesta noite gelada
Em silêncios de conversa cruzada.

Todo este sentimento de angústia
Foge com a lua até ser dia.
Este vinho feito do que eu sentia!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Soneto I

Leve como a última pétala
Que cai da flor que te dei.
Leve como o último beijo
Que com saudade te roubei.

Leve, leve. Leve, leve...
Como tudo o que flutua,
Leve como a tua pele nua.
Como a vida -breve.

Que fosse tudo assim,
P'ra tornar tudo mais simples
Quando as linhas não têm fim.

Mas que nada se perca
Nem tampouco fuja de mim,
Que esta saudade já me aperta.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quero dormir

"Estou cansada, meu amor....
Estou tão cansada,
Desta vida que já não tem saída
Deste ritmo alucinado dos meus pesadelos.
Deixa-me dormir, meu amor....
Para nunca mais ter de ver este sofrimento,
Para nunca mais sentir esta dor que me queima."

Quero dormir
Mas não quero voltar a sonhar.
Quero apenas dormir, sem sentir
O peso dos sonhos presos a ti,
Os pesadelos de uma viagem
Nesse movimento acelerado, sem parar,
Que me leva sempre ao mesmo lugar
E me faz recuar sem coragem...
Quero dormir,
Mas desta vez sem sonhar,
Que eu já não quero mais voltar
Ao lugar dos sonhos magoados.
Quero apenas dormir.
Fechar os olhos cansados
Das noites doridas sem fim,
Dos dias feridos sem sorrir...
Desta vida esquecida, enfim.
Quero dormir.
Esta noite quero ser feliz. E dormir
E não ter mais que voltar
A sonhar naquele lugar.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

São Rosas

São rosas, são rosas...
Nos dias mais quentes descansam em ti,
Nos dias mais frios são sonhos sem fim.
São rosas que florescem na noite,
Que encantam de dia e nascem em ti.

No mais puro odor
Guardam a magia de toda uma dor,
Seguram a nostalgia deixada e esquecida
Por quem não mais quis sentir.
São rosas que nascem e que morrem sem favor.

São rosas, assim, são essas as rosas,
Com toda a pureza, beleza de ninguém...
Mas são rosas em espinho
E ferem com desdém.
São rosas... Poderá a beleza ser assim também?

[Sem título]

What is life to be saved?
What is life to be used?
What is life, what is life...
To be refused?
Is it living or loving
When you call it "life"?

It is you, my dear,
My life is you.